Peça do Mês – Par de galhetas e salva da Capela de São João Batista
Visita guiada temática
O par de galhetas e a salva da Capela de São João Batista fazem parte de um conjunto litúrgico designado nos documentos da época como «serviço para a missa». Este conjunto, que inclui também cálice, vaso de comunhão, campainha, purificador e apagador, foi encomendado em Roma e executado pelo ourives Antonio Gigli (c. 1704-1761?), destacando-se pela coerência estilística e funcional. Nos registos da Embaixada de Portugal em Roma, os pagamentos referem-se ao «servizio per la messa d’argento dorato», sublinhando a ideia de conjunto e a importância destas peças na celebração eucarística.
Segundo as normas estabelecidas por São Carlos Borromeu em 1577, as galhetas deveriam ser transparentes, permitindo ver a água e o vinho. Quando feitas em materiais opacos, como metais preciosos, deveriam apresentar sinais exteriores que distinguissem o seu conteúdo. É precisamente o caso das galhetas da Capela de São João Batista: nas respetivas tampas, uma galheta está assinada com um V – de vino – e a outra com um A – de aqua. Feitas em prata dourada, exibem uma decoração rica, com volutas e aletas, e duas cabeças de anjo no bojo, em linha com o gosto barroco então vigente. As asas são particularmente originais, assumindo a forma de uma figura infantil (putto), com torso e cabeça. A salva, também em prata dourada, apresenta ornamentação com florões e volutas, sendo o bordo maior rematado por duas cabeças de anjo, reforçando a harmonia decorativa do conjunto.
Estas peças não são apenas objetos de culto; são importantes testemunhos da arte barroca italiana e da magnificência que caracterizou a encomenda régia para a Capela de São João Batista, símbolo da ligação entre devoção, arte e poder.
Reconhecendo o carácter excecional da coleção da Capela de São João Batista, o estado português acaba de a classificar como Tesouro Nacional, a mais elevada classificação patrimonial atribuível a bens móveis.
O transporte das peças para Lisboa foi igualmente complexo. Em fevereiro de 1746, um grande caixote contendo a roupa branca saiu do Palácio Cenci, em Roma, rumo ao navio que o levaria até Portugal. Esta logística reflete a dimensão internacional da encomenda, que articulou Roma, Flandres e Lisboa num projeto único.
Hoje, estas rendas são não apenas testemunhos de uma arte delicada; são fragmentos de uma história maior, que une diplomacia, devoção e luxo. Ao lado dos mármores raros e dos mosaicos preciosos da Capela, as rendas recordam-nos que a magnificência barroca se estendia aos mais pequenos detalhes, transformando cada elemento do culto numa expressão de poder e beleza.
Marcação prévia obrigatória.
Participação paga: 3.50€ por pessoa
Máximo 20 participantes.
Marcações e/ou Informações
Museu de São Roque
213 235 449
museusaoroque@scml.pt
